por Carlos Bittencourt.
Todas as discussões, debates e conversas de pé de ouvido acontecidas recentemente me fizeram refletir um bocado. Primeiro, quanto a internet, essa ferramenta maravilhosa que nos permite entrar no ringue num tête-à-tête e travar deliciosas batalhas que, na maioria das vezes, acabam num abraço e num pedido de desculpas mútuo. E, em segundo lugar, comecei a filosofar sobre a nossa atividade e a entrada dos novos talentos nela. Aí, confesso, fiquei um tanto quanto triste. Explico. Ao longo de alguns anos, tenho contribuído para colocar no mercado um bocado de gente boa. Sem cabotinismo, confesso aqui: muito mais mérito deles que meu. Os meninos já entram na faculdade cheios de amor pra dar e, lá, apenas encontram os atalhos para construir suas carreiras e trajetórias. Até aí, nenhuma novidade. No entanto, quando deito olhos e ouvidos no mercado, fico, assim, com um mal estar… Uma sensação que esses talentos novinhos em folha, municiados de técnicas e desejos não possuem quase nenhum conhecimento daqueles que, antes deles, fizeram a nossa história com tanto ou mais que amor que o nosso.
Ao que parece, a propaganda cearense virou um advento pós-faculdades. Todo o esforço anterior não foi nada. Não existiam agências criativas, não existiam talentos, não existiam prêmios nacionais e internacionais. Esquecem nomes vivos como (saravá!) Xyco Theophilo, Barroso Damasceno, Sarmento e uma porção de outros caras que, lutando por aqui, fizeram um bocado pra que essa profissão ganhasse espaço e admiração de um sem número de meninos e meninas que decidiram abraçá-la ainda nesse milênio. A vontade é a de apontar cada um, citei apenas os nomes dos quais estive um pouco mais perto, me desculpem os demais… Na verdade, amo todos vocês!
Têm ainda aqueles que pediram a conta, passaram a régua e deixaram o mercado daqui para rafiar, leiautar e redigir nas agências do céu. São muitos caras bacanas e fazer uma lista seria quase um pecado, podia esquecer alguém e ia me sentir muito mal com isso.
Mas veja bem, não sou daqueles sujeitos que passa o dia a cultuar o passado, longe disso. Vivo tentando entender o que o mundo traz de novo e passo o tempo a “futricar” as novas ferramentas e tecnologias. Mas é preciso saber que a nossa propaganda tem história. E história da boa. Com heróis, vencedores, perdedores e batalhas intermináveis para fazer essa nossa atividade respeitada aqui, lá fora e onde mais ela se fizer necessária e/ou presente.
Não somos um bando de garotos começando a contar um confronto recente. Somos um corpo de profissionais que luta há muitas décadas para fazer nossa atividade valer e ser respeitada.
Como toda guerra, existem os mortos cheios de medalhas e os heróis anônimos. Não levar flores ao túmulo deles é deixá-los um pouco menos vencedores e negligenciar tudo o que fizeram.
Não sei se fui assaltado por um saudosismo geriátrico… É legal olhar para o umbigo e falar um pouco das cicatrizes e como as ganhamos. Mas, vez por outra, vale lembrar que, nesse negócio de propaganda cearense, existem os umbigos de uma ruma de gente. Levantar a cabeça e olhar de onde viemos pode ajudar, e muito, a abrir o caminho para o futuro. Respeitar esses velhos guerreiros seria ganhar um desses prêmios que apenas os mercados mais maduros – e tão admirados – conseguem.
Viva o novo e todo o sangue que ele traz nos olhos. Só alerto que, como nossos avós – e seus silêncios solitários -, o passado ainda tem muito a nos ensinar.
















March 5th, 2010 at 10:08 am
Bittencourt deveria ter uma coluna semanal por aqui.
March 5th, 2010 at 10:13 am
Bittencourt deveria ter uma coluna semanal por aqui. [2]
March 5th, 2010 at 10:48 am
Bittencourt deveria ter uma coluna semanal por aqui. [3]
Se conhece muito pouco da história daqui…
E sobre esses novos “umbigos”, acho o número de estagiários pouco ou nulo em algumas agências. Tem muita gente boa por ai só de “boresta” em casa.
March 5th, 2010 at 11:10 am
Esse meu professor é foda mesmo!
March 5th, 2010 at 11:44 am
Bittencourt deveria ter uma coluna semanal por aqui
March 5th, 2010 at 11:50 am
Simplesmente genial! Estou aqui recordando das inúmeras campanhas criadas ao lado desse cara na Advance. Valeu Bitten!
March 5th, 2010 at 12:07 pm
gostei tb!
March 5th, 2010 at 1:15 pm
Esse Bitten é demais.
Também voto pela Coluna, nem que seja mensal!
March 5th, 2010 at 1:20 pm
Desculpem-me discordar, mas se esta for a tônica da coluna, não sou partidário da sua veiculação semanal. Paradoxalmente, acho uma nostalgia infantil acreditar que em tempos remotos essa entidade que atende pelo nome de “mercado cearense” era una, fraterna e defensora da atividade publicitária.
Prova disso, é que muitos desses heróis citados se converteram, com o passar dos anos, em algozes. Ou, melhor dizendo, em donos de agência, praticantes de condutas bastante questionáveis. Entre as quais, destacaria o desrespeito à jornada laboral e outras leis trabalhistas; além da concorrência desleal, como a isenção de custos operacionais em troca de uma planilha de Excel assinada. Atitudes que corroboram, cotidianamente, para agravar a situação em que nós, que não temos um birô para pôr os pés em cima, nos encontramos.
Entendo perfeitamente que o tempo desperte reminiscências de uma época feliz. Absolutamente normal. O que não consigo assimilar é que essas lembranças extrapolem um imaginário particular, vindo à tona para julgar e condenar uma geração que tem exatamente as mesmas qualidades, as mesmas ambições e, por que não, os mesmos defeitos daqueles de 20, 30 anos atrás.
March 5th, 2010 at 3:49 pm
Vou dar uma opinião meio avulsa a tudo isso e comentar que parte dessa “amnésia” que o Bitten refere vai além do possível desinteresse dos que fazem a publicidade cearense actual. Lembro de uma vez querer me embrenhar pela pesquisa histórica e não ter conseguido achar muita coisa registrada seja em livro ou coisa parecida, pelo menos não de fácil acesso (posso tá enganado). Mas também nem tudo são trevas, tem aí o professor Gilmar de Carvalho que consegue fazer (e muito bem feito por sinal) sempre que pode um resgate do registro da nossa história publicitária de cabeça chata.
March 5th, 2010 at 3:52 pm
Vixe! Parece que fui mal interpretado. Não tenho pretensão de ter uma coluna por aqui. Fiz apenas um registro de momentos que vi e vivi nem tão de perto.
No entanto, acho pertinente reafirmar algumas coisas e pontuar seus comentários – muito bem redigidos, por sinal. Realmente, alguns dos caras mudaram de lado e passaram a reproduzir o que tanto criticaram. O que não destrói o que construíram, apenas mostra que a vida é um processo, muitas vezes, como você apontou George (?), paradoxal.
Não me envergonho de ter uma nostalgia infantil. Felizmente, fui muito feliz e, buscar as referências antigas me renova alguns bons sentimentos. Aí, desculpem-me, olhei o próprio umbigo. Pensando que, talvez, pudesse interessar a outros ou apenas despertar a curiosidade em torno de nomes que estão sendo deixados de lado.
Todos os que trabalharam para alguém, já enxergaram nos patrões os monstros. Criticar os donos de agência é algo que já fiz muitas vezes. Pergunto-me apenas: O que você como funcionário/estagiário/dono de agência fez para mudar isso? Existem algozes, óbvio. Mas existem também aqueles que se deixam levar por uma série de vantagens pessoais. Que, muitas vezes, ignoram o drama dos outros e seguem egoistamente dizendo: não é comigo. Realmente, muitos donos de agência abraçam suas planilhas de Excel como a um filho. Muitas vezes, também, os funcionários se calam e fazem exatamente o que o ganancioso mandou. Tudo isso apenas pela miséria que ele paga no fim do mês ou, quando funcionário gratuito, pela esperança de ser contratado. Relações antigas que, quando enxergadas do ponto de vista histórico dialético explica a famosa luta de classes. Estas são questões que remontam o Século XIX e nós aqui, em pleno Século XXI, recorremos para pontuar nosso pensamento pós-moderno. Estamos, em essência, pagando um tributo ao passado. Exatamente como procurei fazer.
Mas, neste desabafo, apenas quis apontar que a nossa história não começa conosco. Ela é a soma de todos os que nos precederam. Apenas refleti que algumas gerações parecem não entender isso, acreditam que o universo começou com o próprio nascimento. Infelizmente, são jovens que já nascem velhos, com a certeza que nada têm a aprender com outras pessoas.
Já fui estagiário também. Como quase todos, também trabalhei de graça, me senti explorado e tudo mais. Hoje sou dono de agência. Procuro não reproduzir os erros dos outros. Mas, confesso, devo cometê-los também.
Só para deixar claro, não condenei ninguém, sequer julguei. Quis apenas prestar uma homenagem a algumas pessoas que conheci, admirei e, com certeza, reconheci os defeitos também.
Talvez seja infantilidade, talvez seja maturidade. Tenho um pouco dos dois. Como todos nós.
Os clubes de criação não foram inventados pela geração Y, os textos e layouts diferenciados, também não. A propaganda no Ceará não começou com o advento das universidades e faculdades. É tudo um processo, todos nós vamos dar alguma contribuição para que os novos conquistem novos espaços e nos façam vestir o pijama para balançar em algum fundo de rede.
Infelizmente, George, eu sou um sonhador. É o preço que pago. Sou sincero e transparente. Se erro? O tempo todo. Não acho que falar de alguns caras que deram duro seja apenas voltear o imaginário particular. Se assim quisesse, estaria aqui falando do meu tio, do meu pai e de uma figura – que me traz muita saudade pelo talento e pelo caráter – que morreu prematuramente de câncer: o Humberto Martins.
Temos todos as mesmas ambições e defeitos daqueles de 20, 30 anso atrás. Reconhecê-los, no entanto, pode ajudar a mudar o estado das coisas. Se falar deles provocou questionamentos, maravilha. Para alguma coisa esse lamento saudosista serviu.
March 5th, 2010 at 4:28 pm
Acredito que há verdades a se extrair de ambos os pontos-de-vista. Felicito o Bittencourt pelo interesse em resgatar a memória da propaganda cearense. A história é, indubitavemente, o nosso alicerce. Por outro lado, há argumentos igualmente corretos na perspectiva do George. O mercado cearense não se constitui um paradigma da união e da lealdade. Exemplos? 1) Trata-se de uma das poucas categorias em que o sindicado é composto pelos patrões, e não pelos funcionários. 2) Precisamos discutir assuntos de tamanha relevância em um blog – nada contra, Kenzo – posto que não existe um clube de criação sólido e respaldado em que tal querela pudesse encontrar plataforma.
March 5th, 2010 at 5:05 pm
Concordo com o Teo,
a criação do sindicato dos publicitários deve ser esforço dos publicitários. Ninguém fará isto por nós. Os patrões, como sempre, já se organizaram. Principalmente os grandes empresários. Sempre colocamos para nós mesmos que não temos tempo para estas coisas.
Mas, quanto ao paradigma da união e da lealdade… Que atire a primeira pedra o mercado nacional ou internacional que já conseguiu isso. Dentro das agências, aqui ou lá fora, vemos profissionais roubando briefings, trabalhando de madrugada para passar a perna em outra dupla. São coisas “normais”, humanas mesmo. Não somos diferentes. Nem melhores, nem piores.
Realmente a falta de um espaço institucional para as dicussões, não falta, no entanto, mesa de bar para tomar uma gelada no fim do expediente.
É preciso repensar as prioridades.
March 5th, 2010 at 5:27 pm
Bittencourt,
Chegamos a um ponto em comum. Concordo inteiramente com você. Aproveito o ensejo para agradecer-lhe o zelo e a preocupação com o futuro de um mercado que, bem ou mal, é o que temos.
Continue colaborando. Seus textos suscitam discussões valiosas.
March 8th, 2010 at 11:54 am
estando Bittencourt certo ou errado, adoro seu jeito de pensar! Ainda bem que existem pessoas como tio Bitten na universidade.
March 9th, 2010 at 9:24 am
Que bom debate! também torço para que esses temas alcancem outros fóruns! Também fui estágiário não remunerado,também precisei varar madrugadas, também procuro não repetir tudo isso com meu pessoal hoje que sou dono de uma agência. Aliás, quero e espero que todos possam se tornar sócios dela. Por mérito! Mas pasmem: muita gente prefere a segurança de um bom salário com jornada definida… Tem um ditado que diz:” Os navios estão bem mais seguros nos portos, mas não foi pra isso que foram construídos…”
E para lembrar de algumas pessoas importantes na minha trajetória: Luis Carlos Castro, Raimundão, Luciano Melo e Kika Saraiva e o velho e bom Fernando Portela, que se foi e pouca gente soube que foi o primeiro cara a ganhar Cannes no Brasil.
Tínhamos toda essa galera por aqui. E sem contrapor nenhum argumento, nenhum deles está mais por aqui… O mercado sem dúvida já respirou ares mais arejados e melhores referências. Precisamos sim nos tornarmos melhores em todos os sentidos. Bora abaixar o salto! Compartilho com o pensamento do Bittecourt.Também voto nessa coluna semanal!(rs) Abs.